Produtos de baixa tecnologia lideram “reação” das exportações do Paraná

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As receitas de exportação do Paraná caíram 12% nos sete primeiros meses deste ano, para US$ 8,9 bilhões. Embora negativo, o resultado vem melhorando nos últimos tempos – no primeiro trimestre, a queda beirava os 20%.

Trata-se de um pequeno indício de que a disparada das cotações do dólar, que barateia o produto brasileiro lá fora, pode estar começando a ajudar as vendas ao exterior. Sob influência da taxa de câmbio ou não, um número considerável de produtos já registra aumento de exportações em meio à queda geral. Grande parte deles tem em comum o baixo grau de complexidade.

De 851 itens da pauta paranaense, 383 têm exportações em alta neste ano. Seus embarques somaram cerca de US$ 2,9 bilhões de janeiro a julho – US$ 552 milhões a mais que em igual intervalo do ano passado. E 83% desse acréscimo veio de itens industrializados de baixa ou média-baixa tecnologia, ou ainda de produtos que não passam por qualquer transformação.

Os industrializados de baixa tecnologia responderam, sozinhos, por quase metade do aumento das vendas em 2015. Nesse ramo se enquadram algumas das indústrias mais relevantes do Paraná, como as de carne de frango, papéis e madeira.

No segmento de média-baixa tecnologia, responsável por 20% das exportações adicionais, destacam-se os avanços de óleo combustível, laminados de ferro e aço, cerâmica, pneus, plásticos e cimentos. Entre os não industriais, com 13% do aumento das vendas, as maiores contribuições vieram de produtos como trigo, café em grão e feijão.

Entre os itens de maior complexidade, o ramo de média-alta tecnologia participou de 16% da ampliação das exportações, puxado por escavadeiras, bombas injetoras, carrocerias de veículos e produtos químicos. Somente 1% do crescimento da exportação veio de produtos de alta tecnologia, entre eles aparelhos ortopédicos e fibras ópticas.

Questão estrutural

Os números seriam melhores se não fosse o encolhimento da indústria de veículos e autopeças, que produz itens de média-alta tecnologia e exportou 14% menos neste ano. Mas, de modo geral, os dados refletem a estrutura produtiva do Paraná – e do Brasil todo.

“É ruim termos uma estrutura em que predomina a baixa tecnologia. Mas, se é o que temos, devemos aproveitar o que sabemos fazer”, avalia Paulo Springer de Freitas, consultor legislativo do Senado e editor do site Brasil, Economia e Governo. “Não adianta querer exportar produtos de alta tecnologia em um país em que falta investimento em infraestrutura, educação, pesquisa e desenvolvimento e um ambiente de negócios mais favorável. Isso só seria possível com pesados subsídios, o que, sabemos, tem um custo elevado.”

Freitas pondera que, embora os produtos agropecuários não apareçam na lista dos mais complexos, o agronegócio está entre os setores com maiores ganhos de produtividade nas últimas décadas. Não por acaso, essa é uma das áreas em que o Brasil tem as maiores vantagens competitivas no comércio exterior.

Francisco de Castro, economista do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), destaca uma peculiaridade paranaense: a presença de cooperativas na lista das maiores exportadoras do estado. “Elas têm investido na transformação de grãos e carnes, em vez de se limitar aos produtos básicos”, diz.

Reação da indústria ao dólar mais alto deve ser lenta

A cotação média do dólar comercial nos sete primeiros meses deste ano foi de R$ 3,00, valor 31% maior que a média do mesmo período de 2014. Mais recentemente, a taxa de câmbio chegou à casa dos R$ 3,50. Mas, para Emanuel Ornelas, professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Eesp), ainda não há “efeito claramente mensurável” da alta do dólar sobre as exportações.

Segundo ele, o impacto mais significativo ocorrerá apenas quando – e se – o câmbio se estabilizar em nível relativamente alto. “Pode-se pensar na decisão de exportar como um investimento que requer um alto custo fixo. Se o horizonte é muito incerto, o ideal é evitar incorrer nesse custo”, diz.

Ornelas observa que a reação às mudanças no câmbio costuma ser mais rápida para as commodities. Mas ele diz acreditar que em algum momento o dólar acabará ajudando a indústria, que nos últimos anos perdeu participação nas exportações brasileiras. A retomada, no entanto, tende a ser lenta, e pode não ser muito significativa.

“Boa parte da indústria nacional é muito pouco competitiva, por uma série de motivos, incluindo a forte proteção a ela. Como consequência, sua produtividade está muito aquém do mínimo necessário para exportar com sucesso, e a mudança no câmbio não será suficiente para alterar esse quadro”, avalia.

Outra barreira ao aumento das exportações industriais é que, como boa parte dos insumos é importada ou cotada em dólar, o setor está arcando com custos mais altos – assim, o esforço para exportar mais pode não compensar.

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