Noruegueses voltam a ilha 4 anos após massacre que deixou 69 mortos

Mais de mil jovens desembarcaram na ilha em Utoeya para encontro de discussão política e confraternização; para alguns pais de vítimas, ainda é cedo demais para superar trauma.

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É um lugar minúsculo – algumas poucas centenas de metros quadrados de uma colina com florestas e algumas clareiras. Um lugar tranquilo com flores silvestres, onde se pode ouvir o som da água correndo e do canto dos pássaros.

Mas pelos últimos quatro anos, a ilha de Utoeya, na Noruega, tem sido associada a um ato de crueldade incomensurável.

Quando Anders Behring Breivik baleou e matou 69 pessoas, a maioria adolescentes, que participavam de um encontro da juventude do Partido Trabalhista Norueguês, em 22 de julho de 2011, Utoeya entrou na lista de cidades – como Nova York, Londres, Madri e Mumbai – que foram palco de violência motivada por questões políticas.

Agora, a Liga da Juventude Trabalhista (AUF, na sigla em norueguês) quer reivindicar Utueya como lugar de idealismo jovem e discurso político tolerante.

Mais de mil jovens ativistas desembarcaram na ilha, a apenas meia hora da capital Oslo, tomando as clareiras com mochilões, cabanas e violões.

Ao lado de novas construções de madeira onde os participantes discursarão sobre como combater o extremismo na Noruega, entre outros tópicos, está a cafeteria onde muitos de seus companheiros morreram – e que ainda tem marcas de bala e outros sinais da tragédia.

Caos
Ragnhild Kaski, de 25 anos, lembra de ter se escondido perto dali. Ela ouvi os tiros e os gritos, mas nunca chegou a ver Breivik.

“O que eu me lembro daquela dia era do caos. Eu acho que ninguém estava entendendo o que estava acontecendo de verdade.”Agora secretária-geral da AUF se preparando para o primeiro encontro desde 2011, Kaski tenta não ficar obcecada pelo dia mais sombrio de Utoeya.

Ela e seus colegas estão extremamente animadas com a ilha, o acampamento de verão e o futuro. Mas é claro que ainda há uma grande sombra do massacre pairando sobre o local.

Suspenso entre as árvores, há um elegante anel de aço com o nome de quase todas as vítimas de Breivik.

Todas exceto oito, cujos parentes ainda não estão prontos. Enquanto a maioria concorda que já é hora de Utoeya e da AUF seguir adiante, ainda há alguns que acham cedo demais.

Os membros da AUF dizem que entendem a posição desses pais, pois sabem que o luto se dá de diferente maneiras.

Trauma
Um estudo recente divulgado na publicação Scandinavian Project concluiu que alguns pais ainda estão traumatizados demais para trabalhar, enquanto dois terços deles mostram sinais de distúrbio de estresse pós-traumático.

No primeiro ano após o massacre, a determinação da AUF de reformar a ilha e retomar os acampamentos de verão causaram um sofrimento generalizado entre os familiares das vítimas.

“Eles foram apressados”, disse Asne Seierstad, autora do livro One of Us, sobre Breivik e o massacre. “Foi horrível. As pessoas diziam ‘A milha filha morreu, ela sangrou até a morte aqui nessa ilha. E agora as pessoas vão tomar sol aqui novamente?'”

Mas Seierstad afirma que o movimento aprendeu com seus erros, passando a se consultar extensivamente com um grupo de apoio sobre seus planos a respeito do memorial e da reabertura do acampamento.

Ela diz ainda que sempre foi crucial que a AUF voltasse. “É a ilha deles. Se eles não tivessem a retomado, quem teria ganhado? Quem teria mudado a Noruega?”

Para gerações de noruegueses de esquerda, a ilha se tornou um lugar especial.

“Utoeya sempre foi um símbolo de felicidade, comunidade, solidariedade, um lugar que pertence ao movimento”, diz Seierstad. “Sempre foi vista como aquela ilha feliz do Partido Trabalhista.”

 Encontro deste fim de semana será monitorado por policiais  (Foto: BBC)Encontro deste fim de semana será monitorado por policiais (Foto: BBC)

Militantes em potencial
Hoje, a ilha voltou a ser um lugar feliz. Na quinta-feira, estudantes desembarcaram de seus ônibus após pegarem a mesma balsa que Breivik – ele se vestiu como policial para conseguir entrar no local.

Policiais observavam o desembarque de maneira discreta. Eles vão patrulhar a ilha até domingo, quando o encontro chega ao fim.

Autoridades dizem que as chances de outro ataque são baixas, mas eles ficaram alertas após acusações de que a resposta deles em 2011 foi lenta e caótica.

A Noruega, como muitos países europeus, agora se preocupa bem mais com os possíveis perigos apresentados por pessoas com potencial para se tornarem militantes radicais islâmicos.

Jon Fitje Hoffman, diretor de análise estratégica da polícia norueguesa, diz que ainda há muito ódio de extrema-direita e até ameaças circulando na internet, mas há pouquíssima evidência disso nas ruas.

Com mais financiamento e uma nova legislação, ele acredita que a polícia está melhor preparada do que em 2011.”Isso não significa que teríamos descoberto Breivik hoje. Acho que isso é improvável.”

As ações de Breivik pareceram vir do nada. Foram ações de um homem sem nenhum parceiro em sua conspiração, que fez de tudo para não entrar no radar das autoridades ao planejar os ataques a Oslo e Utoeya.

E casos assim são quase impossíveis de prevenir.

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FONTEG1
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