Cidade sueca é sacudida por onda de ataques com granadas

Ataques na terceira maior cidade do país seriam obra de gangues; polícia diz que não há motivo comum em ações.

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Os países escandinavos têm fama de pacíficos e prósperos.

Mas a tranquilidade dos cerca de 300 mil habitantes da terceira maior cidade da Suécia, Malmo, foi quebrada por uma onda de violentos ataques com explosivos.

Nos últimos dois meses, houve ao menos dez incidentes graves, como explosões de granadas de mão, bombas colocadas em carros e um tiroteio.

Duas pessoas ficaram feridas na onda de violência. No ano, já houve mais de 20 incidentes.

No domingo passado, uma granada explodiu em uma rua residencial perto de uma estação de ônibus e causou danos aos edifícios próximos.

Um homem que mora na região contou ter ouvido um barulho alto.

“Os meninos acordaram e começaram a chorar. Abri a janela da cozinha e senti um cheiro de queimado”, disse ao jornal local “Sydvenskan”.

Uma granada explodiu em um estacionamento no último dia 26

“É horrível, dá medo. Sobretudo quando você tem filhos, não sabe onde irão atacar”, disse.

Falta de padrão
A polícia acredita que não há um padrão comum a todos os ataques, que a delegada municipal Pernilla Nilsson classifica de “cruéis”.

“As razões podem ir de ciúmes a vingança ou disputas sobre drogas”, disse ela à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.

A estratégia, segundo ela, é de intimidação: “Mostrar a seus amigos ou inimigos do crime o que você é capaz de fazer”.

Por trás do ataques estão membros de gangues e redes criminosas.

Nilsson e seus colegas já identificaram 15 suspeitos. Dois foram presos e a polícia está à procura dos outros suspeitos.

“Submundo” do crime
A violência das últimas semanas lançou luz sobre um problema que não é novo em Malmo, batizada de “pequena Chicago” pela criminalidade.

Um serial killer causou pânico na cidade entre dezembro de 2009 e outubro de 2010.

Peter Mangs foi condenado à prisão perpétua por três assassinatos e 12 tentativas de assassinato, quase todas contra imigrantes.

Na cidade, ligada por uma ponte à capital dinamarquesa, Copenhague, opera há tempos um “submundo” de redes de crime e bandos que se dedicam ao tráfico de drogas e outras atividades ilegais.

“São homens jovens. Cerca de 30 são muito violentos e os outros 250 são pessoas que não estão conectadas à sociedade, sem formação nem emprego”, explica a BBC Mundo Joakim Palmkvist, jornalista autor de um livro sobre a máfia.

Os bandos atuam há décadas. “O líder do grupo mais importante é um sérvio que chegou a Malmo quando era muito pequeno”, disse.

A cidade recebeu uma grande quantidades de refugiados dos Balcãs na década de 90 e, mais recentemente, imigrantes do Afeganistão e Oriente Médio.

Atualmente, um terço da população é composta de imigrantes. Desses, um terço está desempregado, de acordo com a agência Reuters.

Mas Palmkvist se apressa em desvincular o problema da violência a qualquer questão de origem.

Os criminosos que protagonizaram as últimas ondas de violência “chegaram quando eram crianças e viraram criminosos aqui”, diz.

As granadas de mão usadas nos ataques recentes foram fabricadas em países da ex-Iugoslávia.

“São baratas e é muito fácil consegui-las”, diz Nilsson.

A polícia se preocupa não apenas com as granadas que explodem.

Goran Mansson, chefe da unidade de explosivos da polícia, instrui a população sobre o que a pessoa deve fazer se encontrar uma granada não detonada na rua ou em um parque.

“É estranho fazer em Malmo quase a mesma coisa que fazia no Iraque”, disse Mansson a Reuters. Ele trabalhou com bombas e minas na ex-Iugoslávia, Líbano e Iraque.

Pobreza e desemprego
Manne Gerell, criminologista da Universidade de Malmo, prefere falar das “redes criminosas fragilmente associadas” em vez de grupos muito organizados.

O especialista acredita que há uma relação entre a criminalidade de Malmo e a pobreza de parte de sua população.

“A maioria dos incidentes ocorre em bairros desfavorecidos”, disse à BBC Mundo.

O problema da pobreza se concentra sobretudo em quatro bairros onde há muito desemprego e desconfiança sobre o sistema.

Mas nem todos concordam.

Simone Scarpa, pesquisador italiano da Universidade de Lineo, que estuda a segregação urbana de Malmo, acredita que a cidade não é tão distinta do resto da Suécia.

“Minha perspectiva não é muito ortodoxa. A visão que se tem de fora da Suécia, como um país muito pacífico, não corresponde à realidade”, afirma.

“No resto do país também há crimes e a taxa de homicídio é bem alta.”

“Terror”
De qualquer forma, Palmskvist afirma que os moradores estão “bastante” afetados pelos incidentes.

“Ainda que não seja extremismo, para mim é uma forma de terror”, afirma.

“As pessoas têm medo. É um nível de violência desconhecido na Europa ocidental”, afirma.

O chefe da polícia sueca anunciou que irá enviar centenas de policiais para reforçar a segurança em Malmo, após receber críticas pela escassez de efetivo na cidade durante as férias de verão (no hemisfério norte).

Apesar disso, a delegada Nilsson diz acreditar que a polícia acabará prendendo todos os responsáveis.

“Precisamos de ajuda do resto da Suécia e mostrar que isso não é aceitável. As pessoas devem se sentir orgulhosas de pertencer a essa bonita cidade”, afirmou.

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FONTEG1
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